Reportagem: Yoga além do Instagram

O Yoga é muito mais do que posturas mirabolantes em fotografias perfeitas, você pode praticar e sentir os benefícios que são mais do que físicos


Por Juliana Meneses


O yoga é uma prática milenar, surgida há mais de 5000 mil anos, na Índia que equilibra o corpo e a mente. Segundo a tradição, uma das principais divindades do hinduísmo, Shiva, teria sido seu criador. Num mundo cada vez mais veloz a necessidade de conseguir os benefícios adquiridos por meio dessa atividade se fazem cada vez mais necessários, mas, em contrapartida, a exibição da prática vem se popularizando no Instagram.


De acordo com uma pesquisa realizada pela Sociedade Real para Saúde Pública - RSPH, na Grã-Betanha, o Instagram é a rede social que mais causa prejuízos a saúde mental. Como é de saber esta rede social tende a criar quase um mundo de fantasia, onde todas as pessoas e cenários são perfeitos, e com a yoga não seria diferente. É possível encontrar uma chuva de perfis com as asanas, ou seja, as posturas físicas, mas difíceis exibidas diariamente no feed, levando aqueles que não tem conhecimento da prática a se distanciar por achar que aquilo seria difícil demais.


Alguns mitos são disseminados nessa rede social, que desestimulam os praticantes e fazem pensar que só é considerado yoga algo totalmente simétrico, com posturas complicadas. No Instagram há uma competitividade que faz com que exibir o que se consegue realizar fisicamente no yoga se torne o motivo da prática, o que vai no sentido contrário do yoga, sendo uma armadilha do ego e do exibicionismo. Claro que o contentamento em conseguir realizar determinada asana é natural e uma pequena realização, mas tornar isso algo maior que o yoga faz perder o propósito real e mais profundo.


É muito comum ouvir praticantes de yoga iniciantes tendo vergonha por não conseguir realizar as posturas, ou por não ter a flexibilidade, força, concentração ou corpo atlético. Pessoas que desistem, ou pior, nem começam a praticar achando que o yoga não é para elas justamente por ver na rede social, pessoas perfeitas em posturas perfeitas.


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Realmente, é bem difícil competir com a perfeição, mas é necessário compreender que no Instagram as coisas não são reais. Aquela postura perfeita pode ter demorado muito para ser fotografada, aquele sorriso enquanto realiza uma asana difícil pode não ser tão real assim, e esse tipo de disseminação de conteúdo muitas vezes afasta invés de aproximar. O yoga é uma prática benéfica para todos, trabalha muito além do corpo físico, traz um profundo autoconhecimento, benefícios respiratórios, relaxamento, foco, sensação de bem-estar, indo muito além do que é fotografado.





Benefícios do yoga muito além só de posturas


Um estudo publicado no Journal of the American Osteopathic Association revelou que a prática da yoga pode auxiliar de fato, mas dores crônicas e depressão, que podem ser problemas associados. A dor crônica é uma patologia que afeta milhões de pessoas e muitas vezes afasta de praticar alguma atividade física.


(Link do estudo para hiperlink: https://jom.osteopathic.org/)


Já no estudo publicado na National Library of Medicine foi identificado que o yoga pode ser eficaz como terapia de tratamento de enxaqueca. O estudo demonstrou que houve uma redução significativa na frequência de crises de enxaqueca nos pacientes tratados com três meses de yoga.


(Link do estudo para hiperlink: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17501846/)


Também ficou comprovado em outro estudo publicado na National Library of Medicine, que a prática do yoga pode diminuir as chances de problemas como hipertensão e outros problemas cardíacos. A pesquisa aponta que as mudanças de estilo de vida baseados nas técnicas de yoga, juntamente com modificações alimentares podem retardar o processo de doenças coronárias.


(Link do estudo para hiperlink: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15636328/)





Desmistificando o yoga


O yoga vai muito além do yoga instagramável, ao contrário do que se pensa, as aulas de yoga não precisam ser necessariamente longas. Práticas curtas também são yoga! Outro mito muito comum é acreditar que apenas quem tem um corpo atlético consegue desempenhar a atividade, o que também não é verdade, qualquer pessoa pode fazer yoga, adequando ao limite do próprio corpo, a yoga se torna então também um exercício de humildade onde aprendemos até onde podemos ir e como o nosso corpo reage conforme a atividade é feita.


Muita gente acha que praticando yoga adquirirá um corpo de revista, ou que se não está fazendo as posturas idênticas ao instrutor é porque não sabe fazer yoga ou que não faz corretamente, mas a yoga não é feita nem para comparar o desempenho de quem pratica, nem para modificar a estética. As asanas trazem saúde e sensação de bem-estar ao praticante e isso que deve ser buscado, conseguir realizar determinada postura totalmente será uma consequência da prática, que nem sempre será atingida e tudo bem. Compreender que os benefícios do yoga vão muito além do corpo físico é o que conecta de fato e motiva para querer continuar.


Outra falácia comum de se ouvir é que o praticante precisa ser uma pessoa muito zen e calma para praticar yoga, ou que pessoas ansiosas não conseguem realizar a atividade. Por mais que seja de fato difícil enfrentar os sentimentos ruins como o nervosismo, a ansiedade ou mal-estar, o yoga pode ser um forte aliado nessa luta, ampliando o autoconhecimento, autoaceitação e trabalhando como sair da zona de conforto, enfrentar o ego e desenvolver a concentração. O yoga ajuda a diminuir a ansiedade, você não precisa já ser alguém tranquilo para praticar.




É importante salientar que a postura física do yoga, diferentemente do que se vê muito no Instagram, não tem o foco principal em ser milimétrica ou mirabolante, mas em auxiliar na consciência interna, em ampliar o autoconhecimento, em proporcionar benefícios respiratórios e sensações internas, o que auxiliará de fato na caminhada do praticante.


A professora de yoga Bianca Vita (@biancavita), presente no Instagram com mais de 70 mil seguidores, fez de seu perfil uma ferramenta para mostrar o yoga real, onde as posturas são apenas uma pequena parte da prática, muito diferente do yoga de revista focado em asanas tão inatingível. Confira a entrevista que a professora deu para a Revista Entre Asanas onde ela fala um pouco sobre o assunto:



Entre Asanas: O yoga, uma prática milenar vem se popularizando cada dia mais, e o Instagram que acabou se tornando uma espécie de vitrine de perfeição acabou sendo utilizado como uma forma de exibir as posturas mais difíceis e feitas perfeitamente, como você acredita que isso pode ser um fator que desestimula as pessoas a praticarem?



Bianca Vita: Não é nem uma questão que eu acredito, eu tenho certeza porque eu recebo diariamente mensagens de pessoas falando sobre isso, as minhas publicações sobre isso tem dezenas de comentários das pessoas me falando de como isso desestimula elas, muita gente realmente me fala, nossa eu sou gordinha, estou acima do peso e eu realmente achei que não podia fazer por causa das fotos que eu só vejo gente magra, com o corpo padrão. Então muita gente me manda mensagem falando que realmente me ouvir falar sobre essas quebras de paradigma que o Instagram criou, pessoas que realmente não fazem yoga porque estão acima do peso, ou porque não tem flexibilidade, ou porque tem hernia, tem alguma condição ou limitação física, ou achava que realmente não era pra ela, que ela não podia nem começar a fazer, justamente pela exibição de posturas quase que mirabolantes, muito difíceis e feitas perfeitas de uma forma que poucas pessoas vão conseguir fazer.


Então realmente ao invés do yoga vir para o ocidente e começar a trazer a sua cultura e sua filosofia para cá, eu vejo aos poucos a filosofia do ocidente influenciando a Índia, inclusive se você vai praticar yoga na Índia já está diferente, então por exemplo, essa cultura do corpo perfeito, magro, a maioria das pessoas brancas, magras, longilíneas, com o corpo perfeito e posturas perfeitas, essa cultura que está influenciando a filosofia do yoga, e não o contrário. Eu acredito que desestimula as pessoas, isso é um fato, o yoga está deixando de chegar em pessoas que precisam da prática, pessoas com ansiedade, com depressão, ou querendo autoconhecimento, querendo mais clareza mental, mais gerenciamento emocional e coisas do tipo, pessoas que precisam e não fazem porque são acima do peso ou porque têm outro padrão de corpo, ou pessoas com hérnia que se beneficiariam muito também, fazendo posturas, mas não as perfeitas e mirabolantes. Então muita gente deixando de ter os benefícios do yoga por causa dessa imagem de postura difíceis, perfeitas e para poucas pessoas.





Entre Asanas: Em seus posts, você aborda sobre os temas yoga de vitrine e ego, gostaria que você explicasse um pouco sobre isso.



Bianca Vita: Esse yoga de vitrine surgiu com a criação do Instagram. Eu pratico yoga a muito tempo antes de existir Facebook e Instagram e eu consegui acompanhar essa evolução e claro que o Instagram é uma mídia de fotos e é nítido que uma mídia de paisagem aleatória ou uma foto de rosto, a de rosto tem muito mais engajamento, a foto de corpo com o mínimo de roupa, quanto menos tem mais engajamento, então essa métrica do algoritmo começou a fazer com que as pessoas cada vez colocassem mais fotos que dão curtidas, que geralmente são de posturas mirabolantes, com pouca roupa, em lugares incríveis e tudo montado.


Então o yoga virou esse yoga de vitrine onde ele é mostrado como uma vitrine igual uma vitrine de roupa ou de qualquer outro produto, o objetivo ali é passar um sonho, exagerado, que nem para todo mundo é possível, igual você vai ver numa vitrine duma loja um jogo de prato, você não vai ver ele simplesmente jogado ali, você vai ver ele composto de uma forma perfeita, com um monte de coisas em volta, que não é necessariamente o que você tem em casa, não é a realidade. Com o yoga foi a mesma coisa, então o yoga passou a ser essa coisa de vitrine, fria e irreal, feita como propaganda, onde é para você vender um sonho e que não necessariamente na vida real aquilo vai ser traduzido daquela forma. Então eu vejo que o Instagram trouxe isso da lógica do algoritmo onde muitas pessoas ficaram presas nesse algoritmo e começaram a fazer o que dá mais certo, que é infelizmente expor o seu corpo, o seu rosto e quanto mais mirabolante e perfeito for melhor o algoritmo e na verdade para as pessoas que alimentam ele mas ai é uma discussão muito maior.

E sobre o ego é interessante o quanto isso, essa questão do yoga de vitrine, é um yoga feito para exposição, não é a sua prática pessoal, a pessoa na sua prática pessoal muitas vezes está descabelada, está de pijama, está fazendo só um relaxamento, e ai no Instagram está fazendo algo completamente diferente. Então o termo yoga de vitrine é sobre essa diferença entre o yoga da vida real, que seria a realidade, mas no Instagram o yoga é perfeito.


E é interessante ver como isso é um paradoxo dentro da filosofia do yoga, uma parte muito importante dentro da filosofia do yoga, inclusive os kleshas, que são os cinco motivos do sofrimento interno humano, descrito por Patañjali a milênios atrás, no primeiro livro do yoga a ser escrito, os kleshas eles basicamente falam sobre ego o tempo inteiro, então o caminho do yoga é necessariamente se desfazer do seu ego. Tanto que se você vai para a Índia por exemplo, até mestres iluminados Sadhus, que já atingiram o samadhi, eles não ostentam isso, raramente você vê um Sadhu, um mestre iluminado falando, eu já cheguei no samadhi, afirmando isso claramente e categoricamente.



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Eu lembro que quando fui para a Índia eu conheci um Sadhu e perguntei para uma pessoa próxima a ele e perguntei, e ele já chegou ao samadhi? E ele disse: Eu não tenho certeza porque ele não fala sobre isso, mas pelos indicativos acredito que sim. Então não se fala sobre as suas conquistas incríveis dentro do yoga, que no caso o samadhi é muito mais ostentado na Índia que posturas mirabolantes, então existe dentro da filosofia do yoga isso, onde não se ostenta os seus ganhos, as suas conquistas porque isso seria alimentar o seu ego, quando na verdade você está em um caminho filosófico que faz o contrário, então normalmente se expõe muito pouco essas conquistas evolutivas dentro do yoga, na Índia e dentro da filosofia onde ela está inserida, e esse yoga de vitrine está em um caminho contrário a isso, ou seja, em um caminho contrário da filosofia do yoga.



Entre Asanas: Com o Instagram é cada vez mais comum vermos em fotografias corpos perfeitos praticando yoga, você acha que isso pode assustar as pessoas com corpos normais a tentar começar, como podemos reverter isso?



BiancaVita: Como eu falei na pergunta um, eu não acho que isso pode assustar as pessoas, eu tenho certeza, eu recebo muita mensagem desse tipo, então eu tenho certeza. E como a gente pode reverter isso, é a gente justamente mostrando coisas diferentes no Instagram. Em vez de mostrar só a parte física do yoga, que é uma pequena parte, mostrar também as outras partes, e quando mostrar as partes físicas não mostrar só de forma perfeita e mirabolante, então a gente pode reverter isso mostrando coisas diferentes e eu acho que cabe aos professores isso, porque é claro que a gente que está na ponta da escada puxando todo mundo, então cabe a nós mudar essa imagem do yoga para o yoga real, que não é só físico, então você ser professor de yoga e você mostrar apenas a parte física, 99% ou 95% parte física não condiz com o yoga real, então reverter é isso, começar a mostrar o yoga em si que é muito mais que o físico.





Entre Asanas: Essa obsessão do Instagram acaba fazendo as pessoas focarem apenas nas posturas externas e se esquecerem que o yoga é também uma prática de autoconhecimento e sensações internas, fale um pouco sobre isso.



Bianca Vita: O yoga não é também uma prática de autoconhecimento, ele é autoconhecimento. O foco do yoga inteiro independente de qual parte dele for é o autoconhecimento, esse é o objetivo e o restante são benefícios, então a gente perdeu essa clareza, do que é o yoga e para quê ele existe, ele existe para autoconhecimento, evolução pessoal, iluminação. O yoga é para autoconhecimento, o restante que você ganha no caminho são efeitos colaterais muito positivos e quando eu explico dessa forma, de forma alguma eu estou minimizando os efeitos colaterais ou que a gente não pode praticar yoga querendo os efeitos colaterais, mas a gente tem que ter muito claro para que ele serve, para autoconhecimento, o restante é efeito colateral.


O yoga quando praticado corretamente, você tem a intenção correta, você está com a intenção no objetivo dele e para que ele foi projetado para ser, para ganhar autoconhecimento, evolução pessoal, se libertar de Maya, do mundo ilusório, para se libertar mentalmente, ter uma mente livre, então a gente precisa ter esse norte muito claro. Um monte de parte do yoga está totalmente invertida, por exemplo o yoga são os benefícios do yoga e tem também o objetivo, é o contrário, existe o objetivo e o resto são benefícios que você conquista no meio do caminho. Ou pensar que o yoga é postura física, o resto é resto, não, é o contrário, o yoga é aquele todo, o físico é apenas uma parte, então inverteram vários papéis, mas inverteram justamente os papéis mais importantes que fazem o yoga ser yoga.


Eu estudo o que é o yoga desde a antiguidade, tradicional, mas eu sei que esse yoga imaculado e tradicional ele não se traduz para o mundo moderno e para o ocidente de forma perfeita, não dá para a gente fazer o yoga que se faz no Himalaias a cinco mil anos agora, não é isso que eu proponho, nem o que eu ensino porque não acho que é possível a partir do momento que a gente traz o yoga para uma cultura totalmente diferentes, corpos e mentes totalmente diferentes, mas a minha questão é existem certos pontos chaves que fazem o yoga ser yoga, a gente pode flexibilizar certos pontos para a nossa realidade e para nossa cultura, mas a gente não pode flexibilizar os pontos que fazem o yoga ser yoga, porque senão não é mais yoga, e está tudo bem, como por exemplo Joseph Pilates, que se inspirou no yoga, mas ele se inspirou e mudou tanto os pontos chaves que ele deu outro nome, Pilates, então existem esses pontos que a gente tem que respeitar dentro do yoga para que ele seja yoga, depois o restante eu acredito sim que dá para ter uma flexibilidade, inclusive eu mesma tenho, mas ponto chaves como por exemplo, qual é o objetivo do yoga, isso tem que estar bem claro durante a prática toda, e que o físico é uma parcela de algo muito maior e que mesmo o físico não é feito pelo físico são alguns pontos chaves.





Sua prática de yoga é sim yoga!


1. Yoga é yoga se você não consegue fazer todas as asanas.

2. Yoga é yoga se você só quer fazer uma aula com as posturas mais leves ou de relaxamento e você não precisa se sentir inadequado por isso.

3. Yoga é yoga se você não quer ou não consegue fazer uma aula de uma hora de duração.

4. Yoga é yoga se você não atinge um alinhamento perfeito nas posturas.

5. Yoga é yoga se você não tem o equilíbrio físico igual do seu instrutor.

6. Yoga é yoga se você faz em casa.

7. Yoga é yoga se você não utiliza roupas ou tapete da moda ou caros.

8. Yoga é yoga se você não faz igual as fotos do Instagram.



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