Teletrabalho, “fadiga do Zoom” e os desafios para a saúde mental

Mas, afinal, as empresas têm a obrigação de se preocupar com a saúde mental do colaborador?


Por Mônica Kikuti


De uma hora pra outra a cadeira da cozinha virou cadeira de trabalho, a mesa do computador virou escritório e, literalmente, as pessoas passaram a dormir e acordar no trabalho, diante de outras variáveis como filho querendo ajuda no meio da ligação do chefe, os afazeres domésticos gritando por urgência, cachorro latindo, gato pisando no teclado e o megafone do carro da pamonha ou do ovo invadindo o áudio da call de apresentação de resultado. No meio disto tudo, como fica a saúde mental? É dever da empresa preocupar-se com o colaborador neste quesito?


Convidado pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) e pela Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho (SBPOT) para falar com a exclusividade para a Revista Entre Asanas, o psicólogo Fernando Faleiros de Oliveira, mestre e doutor em Psicologia, relembra que o teletrabalho foi regulamentado em 2017 no Brasil, porém, a pandemia trouxe outros desafios à tona, como a falta de diretrizes governamentais.


“Temos uma cultura muito voltada para a proximidade com o outro, a afetividade. Somos latinos. Isto mudou de forma absurda. Os poucos limites que restavam entre vida pessoal e trabalho estão extremamente misturados: as pessoas respondendo mensagens aos sábados, domingos, trabalhando mais. Estas coisas precisam de atenção e, para os próximos momentos, é um desafio para as empresas que fizeram esta transição (do presencial para o teletrabalho)”, aponta Oliveira que atua em pesquisas sobre Saúde Mental e Trabalho.

Mas, afinal, as empresas têm a obrigação de se preocupar com a saúde mental do colaborador?


“Moralmente e eticamente, espera-se que sim. Mas legalmente não existe obrigação de que faça isto. Também não é obrigatório ter psicólogo na empresa”, esclarece o pesquisador.

Com as interações laborais sendo, praticamente, resumidas a um profusão de videoconferências, já surgiram estudos sobre a chamada “Fadiga do Zoom”.


“Independentemente de onde se está trabalhando, as pessoas não estão indo ao happy hour. Tudo é pelo computador. E esta quantidade incessante de reuniões online, seja para a entrega do serviço ou mesmo para estas confraternizações online, tem feito com que as pessoas já sintam com o acúmulo do uso do computador. Mais uma videoconferência? Ninguém aguenta”, diz.

Entretanto, a ideia de enviar “mimos” aos colaboradores que estão trabalhando em casa é uma iniciativa bem vista.


“Quando a gente fala de organização do trabalho, é de suma importância a questão do pertencimento àquele espaço, que o trabalhador tenha a segurança de que faz parte de um grupo. Ao enviar um kit para o colaborador, a empresa demonstra que está preocupada, que desejaria que o trabalhador estivesse lá, mas que continua precisando muito dele em casa. Existem empresas que estão preocupadas, também, com um custo adicional que o funcionário não tinha antes, como demandas com luz e internet, e estão fornecendo uma ajuda. Isto é reciprocidade”.




Proteção física x saúde mental


O pesquisador Fernando Faleiros de Oliveira ressalta que os riscos físicos do trabalhador sempre foram preconizados pelas Normas Regulamentadoras (NRs) do Trabalho. Porém, das 37 NRs existentes, apenas quatro versam sobre risco psicossocial.


“Numa atividade, os riscos físico, biológico e químico são claros. Mais comuns e mais fáceis de serem sinalizados. Por exemplo, você levanta da cadeira, bate o joelho, ele dói e incha. É visível. O risco psicossocial, não é. Ele pode afetar a mim, mas a você não”, explica Oliveira.

Nas empresas, conforme sinaliza Oliveira, é importante que haja um acolhimento do funcionário em sofrimento psicológico e que haja estratégias para manutenção da saúde dele.


“É preciso fazer o encaminhamento do trabalhador (para tratamento) e desenhar ou redesenhar as formas de trabalho, pensando também no lado psicossocial. É uma reorganização das questões de vida e trabalho de forma geral”.


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Atenção aos sinais


Para Sandra Gioffi, diretora executiva da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH - Brasil), os líderes precisam ficar atentos aos sinais de seus colaboradores e oferecer alternativas para acompanhamento psicológico, seja dentro ou fora da empresa.


“É obrigação do líder estar atento às necessidades do colaborador, ter empatia. Às vezes, até o líder precisa de apoio. Ele não é um super-herói! É um ato de coragem pedir ajuda. Aceitar que não está dando conta. E o RH deve ser, também, um ambiente inclusivo, onde as pessoas devem dar o exemplo. A atitude faz o ambiente”, reforça Sandra.

Ela cita iniciativas positivas que vêm dando resultado, desenvolvidas por empresas ou mesmo por líderes, como sessões online de meditação guiada, mindfulness, yoga e alongamento, bem como envio de kits ou cestas de café da manhã para os liderados, amigo secreto e até amigo da gratidão.


“A gratidão permite olhar seu momento com outros olhos: você está empregado, saudável. Isto ajuda a manter a esperança, a vontade de viver e a motivação de trabalhar. Algumas empresas fizeram parcerias com entidades filantrópicas e incentivaram seus colaboradores a fazerem doações. Então, com 10 reais, por exemplo, você está ajudando alguém. Isto gera altruísmo e bem-estar, confirmados pela neurociência. Isto impacta de forma positiva na saúde mental”, declara a representante da ABRH- Brasil.

Conforme sinaliza Sandra, é importante que as empresas tenham em mente de que é preciso ir revendo e aprimorando o processo de trabalho, dando vazão ao que dá certo e refutando práticas que não têm resultado.


“É um momento em que as empresas devem rever a governança, o que pode mudar e ser melhorado, Por exemplo, como supervisionar o colaborador em casa sem ser igual ‘polícia’, mas de forma humanizada. Isto dá segurança ao colaborador”, finaliza.




Subindo à superfície


Vivian Maria da Silva, 27, moradora de Guarulhos, Região Metropolitana de São Paulo, tem lidado com algumas questões pessoais delicadas, que vieram à tona com mais força com a pandemia. Terminou um relacionamento de quatro anos recentemente e tem se questionado muito acerca do trabalho: é registrada em carteira como representante de atendimento, mas atua em outra função com maior responsabilidade e demanda, não sendo remunerada por isto. A falta de reconhecimento pesa no dia a dia, em que não existe home-office: ela precisa trabalhar presencialmente, por conta desta atividade.


Com toda esta bagagem emocional, a terapia, que vinha sendo adiada há um tempo virou prioridade.


“Antes, em 2015, eu fazia terapia e parei. Neste início de 2021decidi voltar mais pela questão do trabalho. Me sinto muito cobrada e não sou valorizada”, declara Vivian.

Diante da pandemia, a empresa na qual Vivian trabalha passou a oferecer um suporte com atendimento psicológico que, embora não seja o “mundo ideal”, significa alguma coisa para tentar amenizar os impactos nos colaboradores.


“Quando fiquei sabendo que tinha psicóloga dentro da empresa, eu já estava fazendo terapia particular. Colegas que têm esta necessidade (de acompanhamento psicológico) e não possuem condição financeira de pagar, têm passado na psicóloga da firma, mas as consultas têm apenas 20 minutos. Acho um tempo muito pequeno”, opina.

Para Vivian, a terapia particular tem ajudado muito seu desenvolvimento e a forma como tem lidado com as situações que vêm surgindo.


“Pra mim, terapia é algo essencial. Todo mundo deveria fazer terapia para se entender como pessoa e saber respeitar o outro também. Como a gente faz checkup com clínico geral todos os anos, para saber se nosso corpo está funcionando perfeitamente, penso que a gente precisa de um checkup mental, ter um acompanhamento terapêutico. Vale muito a pena!”.




Terapia além-mar