Introdução ao Bhagavad-gitã (2/3)


Extraído Por Helena Bhagavati do “Bhagavad Gita como Ele é” de Swami Prabhupada


Um ser humano deve realizar o objetivo de sua vida; e esta direção é dada em todas as literaturas védicas, e a essência é dada no Bhagavad-gitã.




A suprema Personalidade de Deus, Purushothama, está acima tanto do Brahman impessoal e da realização parcial de Paramãtmã, informa o Gita. O Brahman é como os raios do brilho do sol, descreve o Brahma-sanhita. O Brahman impessoal são os raios brilhantes da Suprema Personalidade de Deus. O Brahman impessoal é a realização incompleta do todo absoluto, e assim também é a concepção de Paramãtmã.


A Suprema Personalidade de Deus é chamado de sac-cid-ãnanda-vigraha. O Brahma-Samhita descreve: Isvarah paramah Krishnah, sac-cid-ananda-vigrahah. Anadir adir govindah, sarva-karana-karanam. Isvarah = o controlador; paramah = supremo; Krishna = Krsna; sat = de existência eterna; cit = conhecimento absoluto; ananda = bem-aventurança; vigrahah = forma; anadih = sem inicio; adih = a origem; govindah = Govinda; sarva-karana-karanam = a causa de todas causas.= "Krishna é a causa de todas as causas. Ele é a causa primordial e Ele é a forma mesma da existência, conhecimento e bem-aventurança eternos."


A realização do Brahman impessoal é a realização de Seu aspecto sac (existência). A realização de Paramãtmã é a realização do aspecto cit (conheci­mento eterno) A Personalidade de Deus é a realização de todos os aspectos transcendentais: sac, cit e ananda (existência, conheci­mento, bem-aventurança) em vigraha (forma) completa.



A Verdade Suprema é uma pessoa transcendental


Assim como todos nós somos seres vivos individuais e temos nossa individualidade, a Suprema Ver­dade Absoluta também é uma pessoa, e a realização da Per­sonalidade de Deus é a realização de todos os aspectos transcendentais.


O todo completo não é sem forma. Se Ele é sem forma, ou se Ele é inferior a qualquer outra coisa, então Ele não pode ser o todo completo. O todo completo tem que ter tudo dentro de nossa experiência e além dela, pois de outra maneira não pode ser completo. O todo completo, a Personalidade de Deus, tem imensas potências.


Também está explicado no Bhagavad-gítã como Krishna age em diferentes potências. Este mundo fenomenal no qual estamos situados também é completo em si mesmo porque os vinte e quatro elementos dos quais este universo material é uma manifestação temporária, se adaptam completamente para produzir os recursos completos que são necessários para a manutenção e subsistência deste universo. Não há nada em excesso: nem há nada faltando.

As pequenas unidades completas, as entidades vivas, têm completa facilidade para realizar o completo, e todos os tipos de incompleto são experi­mentados devido ao conhecimento incompleto sobre o completo.


Bhagavad-gitã contém o conhecimento completo da sabedoria védica. O conhecimento védico não é uma questão de investigação. A investigação humana é imperfeita porque averigua as coisas com sentidos imperfeitos. O conhecimento perfeito é transmitido, como se afirma no Bhagavad-gitã, através do paramparã, a sucessão discipular, a fonte apropriada em sucessão discipular que começa com o próprio Senhor, que é o mestre espiritual supremo.


Tal conhecimento foi entregue a uma sucessão de mestres espirituais. Arjuna, o estudante que tomou lições do Senhor Sri Krishna, aceita tudo que Ele diz sem O contradizer. Deve-se aceitar o Bhagavad-gitã sem interpretações e sem supressões. O Gitã deve ser tomado como a apresentação mais perfeita do conhecimento védico. O conhecimento védico é recebido de fontes transcendentais, e o próprio Senhor foi quem falou as primeiras palavras.


As palavras faladas pelo Senhor são diferentes das palavras faladas por uma pessoa do mundo ordinário que está infectada com quatro defeitos. Uma pessoa mundana l) seguramente comete erros, 2) se ilude in­variavelmente, 3) tem tendência a enganar os outros e 4) está limitada por sen­tidos imperfeitos. Com estas quatro imperfeições não se pode proporcionar in­formações perfeitas do conhecimento todo-penetrante.


O conhecimento védico não é comunicado por tais entidades vivas defeituosas. Ele foi comunicado ao coração de Brahma, o primeiro ser vivo criado, e Brahma por sua vez disseminou este conhecimento a seus filhos e discípulos, da forma como o recebeu originalmente do Senhor. O Senhor é o único proprietário de tudo no universo e Ele é o criador original, o criador de Brahma. O Senhor é chamado de prapitamaha porque Brahma é chamado de pitamaha, o avô, e Ele é o criador do avô.

Assim, ninguém deve afirmar que é o proprietário de tudo; a pessoa deve aceitar apenas as coisas que o Senhor lhe reserva como sua cota para sua manutenção. Há muitos exemplos dados de como nós devemos utilizar estas coisas que nos são reservadas pelo Senhor. Isto também se explica no Bhagavad-gitã. No começo, Arjuna decidiu que não lutaria na Batalha de Kurukshetra. Esta foi sua própria decisão.


Arjuna disse ao Senhor que para ele não seria possível desfrutar do reino depois de matar seus próprios parentes. Esta decisão se baseava no corpo porque ele estava pensando que ele próprio era o corpo e que suas relações ou expansões corpóreas eram seus irmãos, sobrinhos, cunhados, avós e assim por diante. Ele estava pensando desse modo para satisfazer suas exigências cor­póreas. O Senhor falou o Bhagavad-gita para mudar esta visão, e no final Arjuna decide lutar sob as instruções do Senhor.


Neste mundo o homem deve ser inteligente o bastante para realizar a importância da vida humana e recusar-se a agir como um animal ordinário. Um ser humano deve realizar o objetivo de sua vida; e esta direção é dada em todas as literaturas védicas, e a essência é dada no Bhagavad-gitã.


A literatura védica é para os seres humanos, não para os animais. Os animais podem matar outros animais vivos, e não estarão incorrendo em pecado; mas se um homem mata um animal para satisfação de seu paladar incontrolável, ele deve ser responsável por violar as leis da natureza. No Bhagavad-gita se explica claramente que há três tipos de atividades de acordo com os diferentes modos da natureza: as atividades da bon­dade, da paixão e da ignorância. Similarmente, também há três tipos de comestíveis: comestíveis em bondade, paixão e ignorância.

Tudo isto é claramente descrito, e se utilizarmos apropriadamente as instruções do Bhagavad-gita, toda a nossa vida purificar-se-á, e finalmente seremos capazes de alcançar o destino que está além deste céu material. Este destino chama-se o céu sanãtana, o céu espiritual eterno.


Neste mundo material encontramos que tudo é temporário. Ele vem a existir, permanece por algum tempo, produz alguns sub-produtos, se deteriora e desaparece. Esta é a lei do mundo material, quer usemos como exemplo este corpo, ou uma fruta ou qualquer coisa. Mas além deste mundo temporário há outro mundo do qual temos informações. Este mundo consiste de outra natureza que é sanatana, eterna. O jiva também é descrito como sanatana, eterno, e o Senhor também é descrito como sanatana.


Nós temos uma relação ín­tima com o Senhor, e porque todos nós somos qualitativamente um - o sanatana-dharma, ou céu, o sanatana Suprema Personalidade, e os sanatana entidades vivas - todo o propósito do Bhagavad-gitã é reviver nossa ocupação sanatana, ou sanatana-dharma, que é a ocupação eterna da entidade viva.


Estamos temporariamente ocupados em diferentes atividades, mas todas estas atividades podem ser purificadas quando renunciamos a todas estas atividades temporárias e adotamos atividades que são prescritas pelo Senhor Supremo. Esta se chama a nossa vida pura. O Senhor Supremo e Sua morada transcendental são ambos sanatana, assim como as entidades vivas: e a associação combinada do Senhor Supremo e as entidades vivas na morada sanãtana é a perfeição da vida humana.


O Senhor é muito bondoso para as entidades vivas porque elas são Seus filhos. Krishna declara no Bhagavad-gitã: “Eu sou o pai de todos." Naturalmente, há todos os tipos de entidades vivas de acordo com seus diversos karmas, mas aqui o Senhor afirma que Ele é o pai de todas elas. Por isto, o Senhor descende para redimir todas estas almas condicionadas caídas, para chamá-las de volta ao sanatana céu eterno de forma que as entidades vivas sanatana possam recuperar as eternas posições sanatana em associação eterna com o Senhor.


O Senhor vem pessoalmente em encarnações diferentes, ou envia Seus servos confidenciais como filhos ou Seus associados ou acharyas, para redimir as almas condicionadas. Portanto, sanatana-dharma não se refere a nenhum processo sectário de religião. É a função eterna das entidades vivas eternas em relação com o Senhor Supremo eterno. Sanatana-dharma se refere à ocupação eterna da entidade viva. Sanatana "o que não tem começo nem fim".


A palavra "religião" é um pouco diferente de sanatana-dharma. Religião transmite a idéia de fé, e a fé pode mudar. Pode-se ter fé num processo particular e pode-se mudar esta fé e adotar outra, mas sanatana -dharma se refere àquela atividade que não pode ser mudada. Por exemplo, a liquidez não pode ser tirada da água, nem o calor pode ser tirado do fogo. Similarmente, a função eterna da entidade viva eterna não pode ser tirada da entidade viva. Sanatana-dharma é eternamente íntegro com a entidade viva.

Quando falamos de sanatana-dharma devemos tomar por certo que não tem começo nem fim. O que não tem começo nem fim não pode ser sectário, não pode ser limitado por nenhuma fronteira. Sanatana -dharma é a ocupação de todas as pessoas do mundo - ainda mais, de todas as entidades vivas do universo. A fé religiosa não-sanatana pode ter tido começo nos anais da história da humanidade, mas não há nenhum começo para a história do sanatana-dharma porque ele permanece eternamente com as entidades vivas.

Quanto às entidades vivas, a entidade viva não tem nem nascimento nem morte. No Gitã está declarado que a entidade viva nunca nasce e nunca morre. Ela é eterna e indestrutível, e continua a viver depois da destruição do seu corpo material temporário.


Em referência ao conceito de sanatana-dharma, devemos tentar compreender o conceito de religião pelo significado da raiz da palavra em Sânscrito. Dharma se refere àquilo que existe constantemente com o objeto particular. Concluímos que há calor e luz juntos com o fogo; sem calor e luz, a palavra fogo não tem sentido. Similarmente, precisamos descobrir a parte essencial do ser vivo, a parte que é sua companheira constante. Esta companheira constante é a sua qualidade eterna, e esta qualidade eterna é sua religião eterna. O svarupa de todo ser vivo, ou a posição constitucional do ser vivo, é prestar serviço à Suprema Personalidade de Deus.


Todo ser vivo está constantemente ocupado em prestar serviço a outro ser vivo. Um ser vivo serve a outros seres vivos em suas capacidades. Fazendo assim, a entidade viva goza a vida. Os animais inferiores servem aos seres humanos como os servos servem ao seu senhor. A serve ao mestre B, B serve ao mestre C e C serve ao mestre D, e assim por diante. Sob estas circunstâncias, podemos ver que um amigo serve a outro amigo, a mãe serve ao filho, a esposa serve ao marido, o marido serve à esposa e assim por diante. Se continuarmos pesquisando dentro deste espírito, veremos que não há nenhuma exceção na sociedade de seres vivos para a atividade de servir. O político apresenta seu manifesto ao público para convencê-lo de sua capacidade de servir. De modo que os eleitores dão seus votos valiosos ao político, pensando que este vai prestar valiosos serviços à sociedade. O lojista serve ao freguês e o artesão serve ao empresário. O empresário serve à família e a família serve ao Estado nos termos da eterna posição do ser vivo eterno.


Desse modo, podemos ver que nenhum ser vivo está livre de prestar serviço a outros seres vivos, e por isso podemos concluir com segurança que o serviço é o companheiro constante do ser vivo e que prestar serviço é a religião eterna do ser vivo.

O homem professa pertencer a um tipo particular de fé em relação a um tempo e circunstância particulares; e assim proclama que é um hindu. muçulmano, cristão, budista ou de qualquer outra fé . Estas designações são não-sanatana-dharma. Um hindu pode mudar sua fé e converter-se em muçulmano, ou um muçulmano pode mudar sua fé para converter-se em hindu. ou um cristão pode mudar sua fé e assim por diante. Mas em todas as circunstân­cias a mudança de fé religiosa não afeta a ocupação eterna de prestar serviço a outros. Em todas as circunstâncias o hindu, o muçulmano ou o cristão são servos de alguém.


De modo que professar um tipo de fé particular não é professar o sanatana-dharma. O sanatana-dharma é prestar serviço. De fato, relacionamo-nos com o Senhor Supremo em serviço.

O Senhor Supremo é o desfrutador supremo e nós entidades vivas somos Seus servos. Somos criados para prazer d'Ele, e se participamos desse prazer eterno com a Suprema Personalidade de Deus, tornamo-nos felizes. Não podemos nos tornar felizes de outra maneira. Não é possível ser feliz independentemente. assim como nenhuma parte do corpo pode ser feliz sem cooperar com o estômago. Não é possível que a entidade viva seja feliz sem prestar serviço transcendental amoroso ao Senhor Supremo Senhor Krishna.


Quando mencionamos o nome Krishna não nos referimos a um nome sec­tário qualquer. Krishna significa o prazer mais elevado, e está confirmado que o Senhor Supremo é o reservatório ou depósito de todo prazer. Todos nós an­siamos por prazer.


As entidades vivas, como o Senhor, são plenas de consciência, e buscam a felicidade. O Senhor é perpetuamente feliz, e se as entidades vivas se associam com o Senhor, cooperam com Ele e participam de Sua associação, então elas também se tornam felizes.


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