Espelho, espelho meu, esse filtro não sou eu


Os padrões estéticos perseguem de forma desenfreada a população, especialmente a parcela feminina, e atualmente possuem um novo aliado


Por: Raphaela Vitor




Não é de hoje que o tão estimado padrão de beleza vem aprisionando mulheres à uma busca pela beleza irreal, acompanhadas por corpos perfeitos e rostos angelicais. Esse tal “padrão de beleza”, que é impossível de se atingir de forma natural, junto com a pressão midiática exercida sob as mulheres, fizeram com os procedimentos estéticos se tornassem os melhores amigos para aquelas que buscam essa beleza impossível.


De acordo com a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), em uma pesquisa divulgada em dezembro de 2019, em território brasileiro foram realizadas cerca de 1 milhão 498 mil cirurgias plásticas estéticas, sendo o implante mamário com prótese de silicone ocupando o primeiro lugar no pódio e em segunda colocação a lipoaspiração. A pesquisa também apontou a procura por procedimentos estéticos não-cirúrgicos e sendo registrados por volta de 969 mil no ano de 2018, corando assim o Brasil como o país que mais realiza plásticas no mundo.


Porém, com os avanços tecnológicos, mudar a aparência, nem que seja de forma momentânea, para aquelas que não possuem o conforto monetário para arcar com esses procedimentos estéticos se tornou possível, e provavelmente você já deve estar familiarizada com esse artefato, os tão famosos filtros do Instagram

Inicialmente, os filtros surgiram como uma proposta de divertimento para quem fazia uso da rede, colocando uma orelha de cachorrinho ou transformando o rosto em uma caricatura, as opções eram diversas, mas, não demorou muito para que as versões embelezadoras desses filtros entrassem em cena.


Dos mais suaves, aqueles que corrigem de forma leve as imperfeições adicionam uma maquiagem “natural”, até os mais radicais aqueles mudam por completo a feição do rosto, afinam nariz, bochecha podendo modificar não somente a cor dos olhos como também a tonalidade da pele, mas o que acontece quando percebemos que essa versão melhorada de nós mesma está restrita á uma dela de smartphone e longe de ser replicada no mundo real.


“Quando eu tenho um padrão e irreal inalcançável isso pode trazer isso pode influenciar de forma negativa na forma que eu me percebo, então eu posso me perceber de forma negativa quando comparado com aquele padrão, com aquela beleza que é exposta nas redes sociais, então isso pode afetar no sentido de uma comparação e na forma com que a pessoa se percebe”, explica a psicóloga clínica Thais Laudares.

Essa comparação entre a aparência real e a sua versão computadorizada reflete de forma negativa a autoestima que temos sobre nossa aparência no mundo real, a estudante de Jornalismo Laila Aguiar, 21 anos, é umas das vítimas que se encontram sob o feitiço dos filtros embelezadores do Instagram.


“Antes, sempre postei foto e fiz stories sem me preocupar em colocar filtros ou arrumar alguma coisa, depois de forma despretensiosa comecei a usar alguns, porém percebi que toda vez que ia tirar fotos na minha câmera do celular, ficava reparando no tamanho da minha olheira ou o fato dos meus olhos não estarem brilhando, meus cilícios estarem pequenos demais, e eu sinto a necessidade de estar bonita pra mim sabe, não é nem em relação aos outros, é uma coisa pessoas e há algumas semanas completei 5 anos de namoro com o meu namorado, tiramos uma foto e a minha primeira reação foi achar que ficou horrível e logo fui procurar um filtro para colocar, aquilo me deixou mal, porque era um momento especial e só me apeguei aos “defeitos” da foto”

Diferente de sua xará, a tatuadora profissional Laila Amaral, 20 anos, vem usando suas redes sociais como plataforma para conscientizar seus seguidores de que a beleza natural deve ser tão apreciada e normalizada quanto a beleza padronizada que aos poucos nos transformam na mesma pessoa.


“Assim depende muito do filtro sabe eu não sinto que eles afetam muito a minha autoestima, porque atualmente tenho uma boa relação com meu rosto, sou acostumada a ficar sem maquiagem e me olhar no espelho tem uma boa relação com a minha pele, mas não acho saudável esses filtros que alteram a nossa estrutura por exemplo mexendo tamanho do nosso rosto, da nossa boca, dos nossos olhos, por exemplo tenho dois filtros no Instagram no meu perfil e eles são filtros que pegam e dão uma leve amenizada na pele e dão uma corzinha na bochecha e só, inclusive isso foi uma das minhas exigências, não queria nada mudasse a estrutura do rosto de quem usasse, só uma maquiagenzinha que na minha opinião é uma coisa que você pode alcançar na vida real, a gente vive num país tão diversificado em relação a aparência física sabe, e aí você se vendo no espelho olha e fica Meu Deus do Céu tô muito estranho, mas na verdade não está, é normal, é você com as suas características sem o padronização do Instagram que apagam as nossas características”

Mas atingir esse nível de segurança com o seu reflexo natural com o espelho não foi uma caminhada fácil.

Bom antes da onda dos filtros, acho que todas nós já sofremos pressões estética, afinal, somos mulheres e somos vistas como um produto a ser consumido, então, sempre temos que agradar os olhos do outro, foi um processo bem difícil para mim durante a minha adolescência, não vou dizer que é a minha autoestima é perfeita acho que a é de ninguém é, sempre tem altos e baixos mas isso era muito pior, atualmente lido com isso um dia de cada vez, respeitando o meu tempo, entendendo que isso é um processo difícil e que a minha aceitação não vai acontecer de um dia para o outro e que ao meu ver ela nunca vai ser plena 100% sabe sempre vão tem dias ruins e tá tudo bem”, comenta a tatuadora.

Não existe receita mágica que faça você renunciar aos benefícios ilusórios dos filtros, afinal, o Instagram é uma grande vitrine imagética, onde procuramos esconder quaisquer indícios que não sigam a regra padrão para um feed ou stories bonitos, se desapegar é difícil, mas longe de ser impossível.


“A melhor maneira para lidar com essa questão é entender que a autoestima é um fenômeno complexo que envolve vários aspectos da vida não somente a parte estética, e poder trabalhar como a pessoa se percebe como ela lida com as questões da vida, se for o caso buscar ajuda, fazer psicoterapia e tirar o foco dessa questão da aparência e trabalhar também questões relacionadas a aceitação, acho que o caminho sempre é buscar ajuda de um profissional”, afirma a psicóloga Thais

Em um mundo onde a beleza artificial predomina, enaltecer e emponderar sua naturalidade é um ato político, aceitar suas imperfeições e entender que elas compõem e complementam sua beleza é uma tarefa árdua e por as vezes parece pouco compensadora, mas como aquele ditado popular famosos entre as mães “você não é todo mundo”, então comece a não querer se parecer com esse padrão estético instável que muda a cada década, aos poucos faça as pazes com quem aparece do outro lado do espelho e não mascare a beleza que há em ser real.


Na Foto: Laila Amaral (Arquivo pessoal)

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