A história das mulheres no Yoga

Disseminação do Yoga entre as mulheres pode ser reflexo das lutas por transformação social e emancipação feminina


Por Ana Karina Talarico



Há muitas incertezas sobre a origem do Yoga no mundo. O que se sabe de fato é que essa prática milenar surgiu há mais de cinco mil anos junto com a civilização Indus Sarasvati. No Brasil também há muitas controvérsias sobre a introdução dessa prática. De acordo com fontes literárias, isso ocorreu pela ação de um francês chamado Léo Costet de Mascheville, em 1947. Ele organizou o primeiro grupo de estudos de um tipo de Yoga, criado por ele, o Sarva Yoga.


Segundo relatos, Sêvánada Swami, como ficou conhecido mais tarde, era um líder carismático, e com ele praticamente todos os professores mais antigos e conhecidos do Brasil aprenderam o Yoga. Com o passar do tempo, as mulheres também ganharam espaço ensinando essa arte milenar.


Para a estudiosa e professora de Yoga, Helena Bhagavati, que ministra aulas teóricas nos cursos de formação da Escola Riserva Zen Yoga Life, mulheres e homens sempre estiveram lado a lado presentes na maestria do Yoga.


“Eu comecei no Yoga há 57 anos, quando eu tinha 12 anos, aqui em Ipanema, no Rio de Janeiro, com o Caio Miranda. As aulas eram ministradas por ele e pela filha. A literatura que a gente vê, sempre teve grandes mestres homens, mas também encontramos bastante mulheres”, analisa.

Desde adolescente Helena foi aluna de Yoga e em 1995, o professor José Hermógenes de Andrade Filho, a quem ela estava secretariando desde 1988, a incentivou a fazer o curso de formação na Associação Brasileira de Profissionais de Yoga do Rio de Janeiro. Depois, ela fez um curso de formação na Abaco - um colégio de formação de acupuntura e medicina chinesa – e em 2003 foi chamada para coordenar um curso de Yogaterapia na instituição.





Seguidoras do Professor Hermógenes: guru natalense


Hermógenes nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte. Em meio a sua carreira militar, na década de 60, e após um diagnóstico de tuberculose avançada aos 35 anos de idade, Hermógenes descobriu os benefícios da yoga para a saúde física e mental e daí em diante nunca mais parou de trabalhar na sua divulgação, chegando a realizar doutorado em Yogaterapia pelo World Development Parliament da Índia e a conquistar o título de Doutor Honoris Causa pela Open University for Complementary Medicine.


Além de Helena, outras seguidoras do mestre que se destacam nos ensinamentos do Yoga são Lea Mello, da Academia Brasileira de Yoga, Marilda Velloso, do Yoga Pleno e Madalena Freitas, da Academia Madalena de Yoga, que ministra aulas de Yoga Cristã e Yoga Pleno.


Madalena Freitas é professora de Yoga há mais de 30 anos. Com 85 ainda atua ministrando aulas de Hatha Yogano Rio de Janeiro, seguindo a linha do Yoga Cristã. Uma das características do Hatha Yoga é a plena atenção na ação.


Lea Mello criou seu espaço em 1967, também no Rio de Janeiro, atualizando as práticas de Yoga em suas viagens à Índia com mestres como Yengar, Garotte, Parthasaraty e muitos outros. Em sua academia o Yoga Chikitsa é o método principal, é Yoga Terapia para prevenção de sintomas e para manter a saúde estável. Para Lea, o Yoga é arte e ciência. Arte porque as posturas são verdadeiras esculturas realizadas pelo corpo – as asanas. Ciência porque pode ser aplicada a várias patologias com amplo sucesso sem ser medicina.


Marilda Velloso, por sua vez, tem mais de 50 anos de dedicação ao Yoga na área de medicina de reabilitação e psicomotricidade, também no Rio de Janeiro.





Mulheres no Yoga


Segundo Maria Lucia Abaurre Gnerre, pesquisadora do Hatha Yoga e da História do Yoga no Brasil, a partir da década de 1950, algumas mulheres como a jornalista Glycia Modesta de Arroxellas Galvão começam a se destacar. Ela usava o pseudônimo Chiang Sing e escrevia uma coluna na revista “O Cruzeiro”. Em 1965, ela lançou o livro Yoga para Mulheres.


Maria diz ainda em seu artigo “Dossiê Yoga e Meditação”, que essa disseminação do Yoga entre as mulheres pode ser reflexo de uma série de fatores, como por exemplo, lutas por transformação social e emancipação feminina nas décadas de sessenta e setenta. Aqui pode-se dizer que o Hatha Yoga foi considerado como ferramenta de transformação na relação das praticantes do sexo feminino com sua própria corporeidade e consequentemente de transformação de sua relação com mundo. É uma transformação subjetiva, difícil de ser historicamente documentada, mas que repercute de forma intensa em relações sociais e relações de gênero, num período de grande repressão nas esferas públicas e privadas da sociedade brasileira (GNERRE & BAEZ, 2019).


A mestre e doutora em História pela Unicamp cita ainda em seu artigo uma pesquisa iconográfica de caráter preliminar, feita com imagens de livros e capas de discos da época, que mostra a evolução da mulher nessa área. Ela começa com desigualdade social e inferioridade em relação a mestres masculinos poderosos e vai num crescente protagonismo feminino, no qual as praticantes passam por um processo de “empoderamento”, seja de forma individual, seja de forma coletiva, associadas ao Yoga nos anos setenta, que podem ser notadas nas imagens da obra do professor Julio Maran, de 1977, intitulada Filosofia do Yoga, e publicada pela editora Loyola.



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As mulheres no Yoga no mundo


Assim como no Brasil, nos quatro cantos do mundo mulheres se destacaram no Yoga. Quatro delas são: Indra Devi, Swami Silvananda Radha, Lilias Folan e GeetaIyengar.





Indra Devi


Nascida em 12 de maio de 1899, filha de um diretor de banco sueco e uma nobre russa, a letoniana Indra Devi foi a primeira mulher – e ocidental – a estudar com o mestre de Yoga indiano T. Krishnamacharya, o lendário guru que ganhou atenção mundial por parar o batimento cardíaco por dois minutos. Naquela época, o Yoga era uma atividade quase exclusivamente masculina, tanto que ela só foi aceita como aluna graças a amigos influentes. Foi a professora pioneira e uma das primeiras discípulas do Yoga moderna.


Ainda na adolescência, começou a se interessar por conhecimentos espirituais e em 1926, a atriz e dançarina, de 27 anos, participou de um encontro da Sociedade Teosófica, na Holanda, onde conheceu JidduKrishnamurti. No ano seguinte, partiu para a Índia, seguindo o professor espiritual de cidade em cidade.


Morou na Índia durante 12 anos, onde se casou com um diplomata da Tchecoslováquia e em 1937, passou a receber os ensinamentos do mestre Krishnamacharya. Dois anos mais tarde, ele se mostrou entusiasmado com sua aluna e insistiu que ela ensinasse Yoga. E foi o que ela fez o resto de sua vida. Morou na China e na Índia, onde ensinou Yoga e depois partiu para os Estados Unidos, em 1947, já viúva. Na América, casou-se novamente.


Ela tinha um jeito próprio de ensinar, trazendo a perspectiva de uma mulher que tinha conhecido o mundo e sido dançarina. Respeitava os ensinamentos de Krishnamurti, e, no último terço de sua vida, seguia os ensinamentos de Sathya Sai Baba, resultando em uma nova forma de Yoga, batizada por ela de Sai Yoga, que pregava “Ver com os olhos do amor, ouvir com os ouvidos do amor, o trabalho com as mãos do amor.”


A marca característica de Indra era muito mais a devoção e a gentileza. Seus discípulos a chamavam de Mataji, um termo carinhoso e reverente para a mãe. E ela ensinou a eles sobre o amor incondicional. Indra morreu com 102 anos em Buenos Aires, Argentina, onde morava desde 1985.




Swami Silvananda